O Tesouro do Lago Azul


Muitas vezes queremos que uma situação externa que estamos vivendo mude, mas não nos perguntamos o que precisamos mudar internamente para que sincronicamente o que está fora tenha a possibilidade de se transformar. Por não termos a visão panorâmica de fora, achamos que a visão profunda de dentro não pode nos trazer respostas. Como gosto de histórias, então, escrevi uma.

Era uma vez, e não era uma vez um homem que estava em busca de fortuna para resolver os problemas de sua aldeia. Ele rezava e pedia que pudesse ficar rico, pois assim poderia ajudar muitas pessoas. 

Certo dia, um eremita passou por sua aldeia e o homem decidiu se encontrar com ele para fazer uma pergunta: 

_ Grande sábio, ouvi falar que há tesouros guardados em certos lugares. Minha aldeia passa necessidades, por isso preciso descobrir onde encontrar tais tesouros. 

O eremita, sem questionar, lhe disse: 

_ Após a décima quinta montanha ao sul existe um lago muito azul, que guarda em suas profundezas um tesouro. Contudo, há um naga que o protege. 

O homem ficou apreensivo, mas perguntou: 

_ Devo matar esse ser? 

_ Não, você não deve mata-lo, pois ele é um protetor e tem poderes. Você deve perguntar a ele como conseguir o tesouro. 

O homem, prontamente, agradeceu a orientação recebida e foi organizar sua viagem. 

A viagem demorou cerca de três dias, viajar pelas montanhas não era uma tarefa fácil. Mas finalmente o homem chegou à décima quinta montanha ao sul, e viu na sua base um lago, na verdade um pequeno vale com um lago tão cristalino que refletia o azul do céu. Desceu até o vale em direção daquela maravilha. Não havia absolutamente ninguém, apenas alguns animais... E um silêncio profundo. Ao se aproximar do lago, antes mesmo de tocar em sua água, o homem ouviu uma voz: 

_ Quem é você que está diante de minha casa? 

Apesar de já saber da existência da criatura protetora do lugar, o homem ficou amedrontado. Mas mesmo assim, teve coragem para dizer: 

_ Desculpe-me a ousadia, nobre senhor. Vim aqui, pois um grande sábio me falou desse lugar. Vim pedir humildemente para ter um pouco do tesouro que o senhor guarda neste lago. Minha aldeia está com dificuldades, quero ajudar meu povo e construir uma escola para as crianças. 

Houve um silêncio e depois o homem ouviu de novo a voz: 

_ E por que espera ter um tesouro para poder fazer algo por alguém? 

_ Porque sendo rico posso construir as coisas que minha aldeia precisa. 

_ Por que espera construir coisas se em seu coração você não é capaz de oferecer nada? 

_ Como assim, senhor Naga? Sou bom pai e cumpro os meus deveres. 

_ Você quer coisas sem desconstruir sua ganância. Quando tiver a riqueza que queres nada de fato fará pelos outros. Você quer ter o controle, não tem confiança o bastante para começar algo e deixar que os recursos venham. 

O homem não estava acreditando no que ouvia, um sentimento de raiva, surgia, viajou tanto para estar ali, não iria desistir. 

_ Então, me diga, nobre senhor dessas águas, o que posso fazer para conseguir o tesouro que guardas? 

_ Você precisa descobrir a riqueza de seu coração, só depois poderá ter o tesouro que guardo aqui. 

O homem se retirou rapidamente, estava confuso, com raiva, mas ao mesmo tempo impressionado com o que ouviu. Ele voltou à aldeia de mãos vazias, desolado e com vergonha. Passou um tempo se perguntando qual era a riqueza de seu coração, e o que significava desconstruir a ganância. Com o tempo, como alguém que abre uma porta, começou a ver coisas a seu respeito que não via antes. Percebeu que no fundo queria dinheiro para seu benefício e dava como desculpa a situação de sua aldeia. Ajudar os outros, construir uma escola era apenas uma bela fachada. Ele também percebeu que não confiava o bastante nos outros, queria ter dinheiro para controlar, para fazer tudo sozinho. A visão interna de seus demônios não era algo bom. Mas olhando de perto para eles, percebeu que no fundo se sentia só e queria ser amado. Então, passou a se perguntar o que podia oferecer que era uma habilidade sua, que faria com o coração.

Conversando com sua esposa sobre isso, ela prontamente respondeu: 

_ Ora homem, não está vendo? Você é muito bom em organizar coisas e pessoas, e adora ensinar. 

De fato, ele era bom em organizar. Então, resolveu conversar com o chefe da aldeia e pediu que fizessem uma reunião com todos, não apenas os homens. Propôs que sua aldeia fizesse um mutirão de ajuda mútua para repararem as casa uns dos outros, usando os recursos que tinham. 

A comunidade se reuniu, organizaram uma lista de necessidades e foram dividindo tarefas. Interessante foi descobrir as habilidades das pessoas e as ideias que elas iam tendo. Tudo passou a ser compartilhado, dividido e a aldeia começou a ter outra aparência. Não só porque as casas e jardins estavam mais bonitos, mas também porque as pessoas estavam mais felizes. Nenhum problema era maior do que o compromisso deles. 

Olhando para tudo aquilo, o homem viu que chegou a hora de começar a oferecer outra habilidade que tinha. Passou a se reunir com as crianças da aldeia duas vezes por semana para ensinar escultura. Seu pai era um artista, lhe ensinou muitas coisas. Com o tempo, o quintal de sua casa começou a ficar pequeno para ensinar as crianças e guardar as obras criadas. 

Então, de novo a comunidade se uniu para construírem duas tendas, uma para as aulas, e outra para guardar as esculturas e vasos. Como o tráfego de comércio era grande naquela região, decidiram que iriam comercializar ou trocar sua arte. Estava nascendo uma nova forma da aldeia se sustentar, além da criação de animais e plantio de cereais. 

O homem começou a ficar famoso como professor, e aldeias vizinham começaram a requisitá-lo para dar cursos de arte. Sua forma de ensinar começou a ficar famosa em toda a região e certo dia foi procurado por um homem muito rico que apreciava muita a arte e queria construir uma escola. Foi, então, que a primeira escola de arte foi construída, novos professores foram aparecendo, assim como alunos de regiões diversas viam para poder estudar nela. A aldeia foi prosperando, crescendo e ficando conhecida por seus talentos. 

Dez anos depois de sua visita ao lago, o homem se lembrou do encontro com o naga. Sentiu uma enorme gratidão pela vida e seus ensinamentos. Hoje sua aldeia era muito próspera, assim como ele. Havia um sentimento de generosidade nas pessoas, no cuidado consigo e com o outro, assim como com a natureza. Agora ele entendia o que o naga havia lhe dito. Aprendendo a confiar, pôde se encontrar verdadeiramente com as pessoas que viviam ali. Por meio do seu coração, se viu interligado a todos. 

Ah! E o tesouro que o naga guardava? Dizem que ainda está lá, no lago, na décima quinta montanha ao sul!

Juliene Macedo

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